Erebor - Cap 2
by , 06-02-2013 at 21:35 (378 Vistos)
Olá, pessoal! Segue continuação da minha fic. Espero que gostem.
Comentem, please!
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Decisões difíceis mas sábias (?)
Enquanto Thorin e Thailis conversavam e especulavam a respeito das decisões tomadas pelo rei de Erebor sobre atacar ou não os orcs, Lánis e Bráin passeavam e também conversavam. A princesa não precisou mostrar muita coisa ao primo visto que não havia muitas novidades na cidade desde sua última visita, alguns anos atrás. Neste momento os dois estavam na praça principal da cidade, onde estava localizada a grande estátua de Mahal, ou Aulë, o Criador dos Anões. Esta era uma das poucas novidades da cidade, que foi apresentada a Bráin por uma Lánis muito orgulhosa.
- Papai disse que este é um dos grandes Monumentos dos Reinos sob a Montanha! Foi considerado o mais belo, sabia? – dizia ela, toda feliz. – Mahal deve estar feliz comosco, pois essa homenagem foi feita a ele por um povo grato.
- Sim, ele deve – respondeu Bráin, que examinava os belos detalhes em fino ouro e as pedras brilhantes engastadas na preciosa estátua. – Temos um belo trabalho em ouro aqui, hein. Realmente digno de um reino como Erebor. Deve ter custado muito caro! – seus olhos brilhavam.
Lánis olhou para ele pensativa, pois notara que o primo preocupava-se mais com o preço do que com o significado daquela estátua. Sempre gostara de Bráin, mas notava nele uma ganância um pouco desmedida. É verdade que os anões apreciam o ouro e os belos e finos trabalhos de artífices competentes, mas o garoto parecia passar um pouco dos limites, como agora. Ao invés de apreciar a bela homenagem que seu povo rendeu a seu Criador, preferiu analisar o ouro e as pedras preciosas, esquecendo-se mesmo de perceber que estava diante de um monumento considerado sagrado.
- Bráin – Lánis chamou sua atenção – você ouviu o que eu disse sobre essa ser a estátua de Mahal? Foi inclusive consagrada pelo Sr. Azaghal!
- Ouvi, Lánis. – respondeu o garoto – Mas quem é Azaghal?
- É o mais velho do reino. Conta-se que ele é o anão mais sábio que existe aqui e que, inclusive, tem o dom da profecia! O próprio Criador fala através dele. Ele sempre ensinou nosso povo e corrigiu-o caso não se comportasse direito. Até papai se aconselha com ele e ouve o que ele diz, mesmo se suas palavras forem duras e tudo o que ele diz é para o bem de Erebor e de seu povo. Por isso somos tão felizes aqui. O Sr. Azaghal sempre diz que “quem segue os caminhos corretos é feliz mesmo em meio à tristeza!” Eu gosto muito dele.
Bráin ficou confuso.
- Como alguém pode ser feliz e triste ao mesmo tempo? E como uma pessoa pode prever o futuro, como você diz que ele pode? Ninguém pode prever o futuro, Lánis. E muito menos ser a “boca” de Mahal. O Criador está no Oeste e nós estamos aqui. Andamos como queremos, sem precisar de velhos profetas. Mahal esqueceu-se de nós há muito tempo, desde que o primeiro Senhor do Escuro resolveu meter seu nariz aqui e acabar com suas outras criações. Não acredito que ele iria precisar de um velho para falar e nem acho que ele iria querer fazer isso.
Lánis arregalou seus olhinhos azuis e retrucou, cheia de indignação.
- Ficou maluco? Que coração mais duro esse seu! De onde você tirou essas ideias ridículas? De seus pais é que não foi! É melhor se endireitar ou vai acabar tendo problemas!
- Quais, Lánis? Até hoje nunca tive motivos para me preocupar. E, se quer saber, lá em Gundabad há muitos anões muito sábios, que dizem exatamente essas coisas que eu falei agora. Se Mahal quisesse realmente saber de nós, estaria aqui e não lá na confortável e segura Valinor, não acha?
Valinor, para quem não sabe, é o lar dos Valar, povo ao qual pertence Mahal, o criador dos Anões. Realmente é uma terra segura, mas o fato dele estar lá não significa que não se preocupe com seu povo. Apenas sabe que não deve interferir diretamente em suas ações para não quebrar suas vontades e transformá-los em simples bonecos controlados por ele. Porém nunca desamparou qualquer filho seu se este lhe pedisse ajuda. Isto foi o que Lánis tentou explicar a seu teimoso primo, que achou aquilo conversa de criança boba (mesmo não dizendo isso com essas palavras). Disse apenas:
- Você um dia vai crescer Lánis, e vai ver as coisas como se deve. Mas agora estou com sede. Vamos tomar um suco?
Lánis, com um olhar de esguelha para o primo, concordou e os dois foram para uma estalagem ali perto, onde muitas anãs e muitos anões vinham com seus filhos para conversar e passar o tempo. Pediram dois sucos fermentados e sentaram-se em uma mesinha na varanda. Quando terminou seu suco, Lánis pediu licença para ir ao banheiro (“o suco do meio dia acha que é hora de me dar adeus”, disse ela com bom humor). Após a saída da menina Bráin, que olhava para todos os lados com interesse, foi surpreendido por um senhor realmente idoso, com uma longa e espessa barba branca como a neve. Vestia uma túnica cor de cobre e um manto pesado feito de lã. Trazia nas mãos um cajado de madeira retorcida, onde brilhava uma única pedra branca e brilhante. Além desta pedra em seu cajado (que era presente do rei), não trazia mais nada de valor consigo.
- Olá, rapazinho – cumprimentou ele, com simpatia.
- Olá, senhor – respondeu Bráin, um pouco surpreso e com certa arrogância ao analisar a simplicidade das vestes daquele velho anão. – O que quer?
- Apenas saber qual é seu nome. – respondeu o anão, sem se deixar abalar pelo tom arrogante daquele rapazinho.
- Sou Bráin, filho de Náin, príncipe de Gundabad. – respondeu ele, com um certo orgulho. E acrescentou, lembrando-se das boas maneiras – A seu dispor e de sua família. – claro que isto era apenas uma frase retórica. Bráin jamais se rebaixaria a servir alguém semelhante a um mendigo, se é que ele realmente não era um.
- Então, Bráin filho de Náin. – continuou o velho, sentando-se – quer dizer que você acha que estamos sozinhos, sem o olhar de nosso Criador. Procede?
Bráin, incomodado, sem querer dar muitas explicações a um desconhecido, ainda mais um desconhecido tão pobre, respondeu simplesmente “Procede”.
- Seu coração está longe da verdade, menino. – o velho olhou fundo nos olhos daquele menino que, mesmo não querendo, desviou o olhar. O príncipe sentiu-se repentinamente inquieto, tomado por um receio que não sabia explicar de onde vinha e por que vinha. – Mas, mesmo assim, vejo que você terá um grande futuro, príncipe de Gundabad.
- Terei? – Bráin perguntou, ainda inquieto, mas com interesse renovado.
- Sim, terá. Um grande destino, porém terrível se seu coração permanecer duro como pedra, tal como está agora. Cuidado ou, antes do fim, preferirá nunca ter sido o detentor de tão terrível sina. Estas palavras não sou eu quem as diz. Ouça-as!
E retirou-se antes que Bráin pudesse responder, deixando-o pálido e sem palavras. Quando Lánis retornou, encontrou-o mergulhado em pensamentos.
- O que foi, Bráin? – perguntou ela.
O menino ergueu os olhos e, decidindo não contar nada do que ouvira, respondeu simplesmente “Nada de mais”. Claro que Lánis não pôde acreditar nisso, mas talvez fosse melhor deixar o primo pensar e acalmar-se. Depois falaria com ele. De repente lembrou-se do que ouvira a respeito do possível ataque a Angmar e ficou toda alvoroçada.
- Bráin, será que papai ajudará a atacar Angmar? – perguntou ela, querendo melhorar a cara de seu amigo e especular um pouco sobre o assunto.
- Boa pergunta – respondeu ele, ainda sombrio.
Lánis olhou para ele e franziu as sobrancelhas, notando a falta de interesse do primo.
- Mas você estava falando nisso até agora há pouco, antes da conversa sobre Mahal...
- Lánis – Bráin falou com voz cansada – quero apenas ir descansar um pouco. Vamos voltar para o palácio.
- Está bem. Vamos.
Foram andando de volta ao palácio, sem dizer palavra. Enquanto andava, Bráin esforçava-se para livrar-se das palavras ditas pelo velho. Aquilo abatera-se sobre ele como um martelo pesado, quebrando seu ânimo. Algo dentro dele lutava para adverti-lo e impedir que algum mal acontecesse, acreditando na verdade contida em tão perturbadora revelação, mas ele era um anão excessivamente teimoso e muito orgulhoso, de modo que as palavras ditas por um velho humilde, mesmo verdadeiras, lhe pareciam indignas de atenção e, muito menos, preocupação. Infelizmente, seu lado orgulhoso estava vencendo a disputa, embora a inquietação insistisse em permanecer presente.
“Quem aquele velho pensa que é para me dizer aquelas coisas? Se eu não desconfiasse de que ele é o tal Azaghal de quem Lánis falou, nunca teria ficado incomodado com qualquer palavra dita por ele. Estou impressionado, só isso. Em algumas horas isso terá passado. Basta que eu tire um cochilo”, repetia ele para seu lado mais sábio. E assim ainda pensava quando desabou em sua cama macia, no quarto de hóspedes do palácio.
Lánis, ainda encucada com o comportamento do primo, foi procurar Thorin depois de acompanhar Bráin até seus aposentos. Não demorou muito e a menina achou dois anõezinhos muito faladores perto da entrada do palácio. O passeio havia sido bom, porque eles conversavam e riam com gosto. Durante aqueles instantes em que ficaram juntos, uma forte amizade nasceu entre eles, que só aumentou com o passar do tempo e resistiu bravamente às mais duras provas que a vida impôs a eles.
- Pelas barbas de Durin, Thailis! Você disse DUAS moedas?! – exclamou Thorin, mais do que estupefato.
- Foi o que você ouviu, Thorin Olho de Águia. Duas moedas como meu pai vai convencer o tio Dáin a acompanhá-lo até Angmar! Aceita a aposta? – Thailis olhou desafiadora para o amigo, com os bracinhos cruzados.
Thorin coçava o queixo pensativo. Era uma aposta alta (para crianças), mas bastante interessante. Enquanto ele pensava, Lánis correu até eles.
- Duas moedas como o tio Náin convencerá o papai? – questionou ela – Eu aposto que não convence.
- Será? – perguntou Thailis
- Não. Ele estava com a sobrancelha levantada durante o almoço enquanto tio Náin falava. Quando isso acontece, ele sempre diz não.
Agora foi a vez de Thailis ficar pensativa. Thorin ainda coçava o queixo. Depois de pensar um pouco, o rapazinho declarou:
- Aposta aceita. Mas eu sou da mesma opinião de Lánis. Ele vai dizer que não.
- Rá! – sorriu Lánis. – Se é assim, eu também vou entrar na aposta. Posso?
- À vontade, Lánis. – respondeu Thailis. – Mas eu confio na capacidade de convencimento do papai. Duas moedas como ele convence sim! Muito bem, aqui estão minhas duas moedas.
- E as minhas! – Lánis ainda sorria, certa de que venceria.
- Aqui estão as minhas. Deixem neste saquinho aqui. – falou Thorin. – Veja lá, Thailis. Tem certeza de que quer mesmo apostar?
- Claro! Conheço o pai que tenho. Mas e Bráin? Será que ele vai querer apostar? Aliás, onde ele está, Lánis?
- Foi dormir. Ele estava cansado da viagem. – respondeu Lánis, meio incerta a respeito da declaração de cansaço do primo.
- Tem certeza, Lánis? – questionou Thorin, que notou o tom de dúvida nas palavras da irmã.
- Não – respondeu ela – Na verdade ele estava bastante estranho. Não quis dizer o que foi, mas quando eu o deixei sozinho por um minuto ele estava bem. Quando eu voltei já não estava mais.
- Estranho – disse Thailis, pensativa – Mas de qualquer forma não é bom incomodá-lo agora. Quando Bráin acordar eu falarei com ele. Mas pelo menos vocês se divertiram, Lánis?
- Sim, enquanto falamos de ouro e joias caras. Bráin gosta muito dessas coisas. Eu gosto dele, mas às vezes ele parece um pouco ganancioso. Além da conta para um anão.
E contou sobre sua conversa na praça.
- Bráin é assim, Lánis. Sempre foi meio do contra, você sabe disso. Talvez ele se endireite quando crescer mais. Não acha, Thorin?
- Espero que sim. – declarou o príncipe.
Esquecendo essas ideias sobre as esquisitices de Bráin, os meninos saíram para brincar um pouco lá fora. A tarde avançava quente e agradável, iluminada por um sol alegre em um céu tão limpo quanto as claras águas do Rio Corrente. Os três correram e brincaram tanto que, quando o Sol começava a afundar no oeste, eles desabaram cansados em cima da grama.
- Querem ouvir uma história? – perguntou Thorin.
- Claro! – responderam as meninas.
- Você já ouviu sobre Smaug, o Dourado, Thailis? Thorin conta como ninguém! – disse Lánis, que amava ouvir essa história.
- Não – respondeu Thailis, curiosa. - Quem era?
- Vou lhe contar, Thaillis – sorriu Thorin, e continuou – Smaug, o Dourado, era um dragão. Uma fera gigantesca, avarenta e cruel que, atraída pelos rumores de riquezas incalculáveis, um dia invadiu Erebor, muitos e muitos anos atrás. Naquele dia negro, nosso povo foi expulso daqui, e muitos foram mortos pelo dragão. Todo o ouro que existia na cidade foi saqueado e empilhado em um monte tão grande que nem todos os anões que vivem aqui hoje poderiam juntos carregar. E lá o dragão se deitou, em um leito formado por toda a riqueza que nosso povo conquistou com tanto trabalho e dedicação. E assim nosso reino foi tomado de nós e um povo antes nobre e poderoso foi condenado ao exílio. Viveram sem lar, ora aqui e hora ali, até que treze anões, um mago e um hobbit foram corajosos o suficiente para virem aqui e desafiarem a besta. Sozinhos!
- O que é um hobbit? – perguntou Thailis, que estava gostando da história.
- Um hobbit é como um anão, só que menor e sem barba. Eles vivem em tocas no chão e gostam de comer e fumar cachimbo. E foi em uma destas tocas que Thorin Escudo de Carvalho, herdeiro do trono de Erebor, encontrou nosso hobbit e o contratou para ser o ladrão que saquearia o covil da fera. Thorin era muito corajoso, e desejava a qualquer custo derrotar Smaug e devolver o lar a seu povo, vergonhosamente expulso da Montanha Solitária pelo dragão. Seus doze companheiros eram muito leais a ele, aceitando essa missão sem reclamar, mesmo que fosse uma missão aparentemente suicida. Depois de passarem por grandes perigos, os companheiros de Thorin finalmente chegaram aqui. Bilbo, o Hobbit Ladrão, entrou sozinho no covil do dragão e descobriu um ponto fraco em sua couraça aparentemente impenetrável. Isso fez com que ele pudesse ser vencido e, usando sua última flecha, Bard, o Arqueiro da Cidade do Lago, matou o dragão que deixara seu covil e voava sobre a cidade lá fora. Após a morte de Smaug, Thorin e seus companheiros retomaram seu lar. Mas os problemas não pararam por aí. Os elfos, sabendo da missão dos anões e da grande quantidade de riquezas que agora possuíam, vieram até aqui para reclamar uma parte do tesouro por conta de antigas pendências, e o mesmo fizeram os homens de Lago. Thorin, vendo nisso uma atitude indevida, mandou-os de volta às suas casas e as disputas e a cobiça de todos quase começou uma guerra, que só foi evitada com a chegada de mais um exército: uma grande horda de orcs! Então, todos os outros uniram suas forças e, ajudados por mais um exército formado pelos anões das Montanhas de Ferro, liderados por meu antepassado Dáin Pé de Ferro, enfrentaram seu inimigo em comum. Até as grandes Águias deixaram seus ninhos para ajudar e esta ficou conhecida como a Batalha dos Cinco Exércitos, na qual os orcs foram vencidos e a paz voltou de vez a Erebor.
- Então Thorin Escudo de Carvalho tornou-se Rei sob a Montanha? – perguntou Thailis, que simpatizara com este personagem das histórias antigas.
- Não. – suspirou Thorin – Ele foi morto por um orc, junto com seus dois companheiros Fili e Kili, que eram seus sobrinhos.
- Pobre Thorin! – exclamou Thailis.
- Não fique triste. Pelo menos ele cumpriu sua missão e morreu com honra. Seu grande defeito era a ambição desmedida e o ódio excessivo que, inclusive, causaram desavenças entre seus próprios companheiros. Mas, antes de morrer, Thorin disse algo que tornou-se uma lição para todo o nosso povo. Ele disse que, “se mais de nós dessem mais valor a comida, bebida e música do que a tesouros, o mundo seria mais alegre”. Nunca esqueceram suas palavras, que mostram o quão sem sentido é a ambição e o apego aos tesouros se eles são colocados a cima do que realmente vale a pena. Thorin, antes do fim, deixou de lado seus velhos erros e assim partiu com honra e com o coração limpo. Ainda hoje, muitos de nós vemos nele um símbolo de coragem, sabedoria e amor pela nossa terra e nossa gente. – terminou ele, com um sorriso.
- Nunca tinha ouvido essa história. – falou Thailis, encantada. – É tão linda! E deve ser em homenagem a Thorin Escudo de Carvalho que você foi chamado de Thorin, não é?
- Correto. – confirmou o menino, orgulhoso. – Thorin Escudo de Carvalho é um exemplo a ser seguido, a pesar de seus erros. Quando eu crescer, desejo ser um rei que defenda seu povo e tenha a coragem de enfrentar até mesmo dragões por causa dele.
- Você será um grande rei, Thorin Olho de Águia. – declarou Thailis, cheia de carinho por seu primo, que sorriu agradecido.
- Por falar em rei! – Lánis pulou de repente – Vamos ver o que papai e tio Náin estão fazendo?
Todos correram de volta a Erebor, em direção à sala de reuniões do palácio. E lá, ouvindo atrás da porta, os meninos ouviram os dois reis em uma discussão acalorada.
- Ficou louco, Dáin? – exclamou Náin, com seu vozeirão potente, cheio de indignação – Você acha que Erebor permanecerá segura se os orcs deixarem Angmar e vierem até aqui? Seu reino pode ser seguro, mas não é impenetrável! Deixe de ser teimoso e vamos colocar seus exércitos em marcha de uma vez!
- Não! – Dáin gritou em resposta – Já falei que não! Olhe para meu povo, Náin! Apenas metade do exército enviado a Gundabad retornou! Chega de mortes, se não sobrarão muito poucos de nós! Já dei minha palavra final. Eu NÃO VOU A ANGMAR! E ponto final! Vá você, mesmo que eu ache que nem você deva ir.
Náin deu um poderoso soco na mesa e começou a andar de um lado para o outro, nervoso.
- Você, Dáin, é o anão mais teimoso que eu conheço! Quantas vezes vou ter de repetir que temos chances de acabar de vez com nosso maior inimigo? Isso sem falar nas vantagens dessa vitória, que eu já citei também umas milhares de vezes! O que preciso fazer para convencer você de que essa é a coisa certa a ser feita?!
- Nada. Nada mesmo. Está perdendo seu tempo. De Erebor não sairá exército algum. Não vou deixar minha cidade desprotegida, ou será que preciso repetir tudo o que disse antes a respeito dos rumores vindos da Cidade do Lago? Há um perigo a sul daqui, meu irmão. Mesmo não sabendo qual é, não vou sair e deixar meu reino vulnerável. Se não for nada, tudo certo. Mas e se os rumores tratarem de fatos concretos? O que vai ser? Para mim a discussão acabou. Fim de conversa!
Náin parou de andar e acalmou-se. Bem, rumores sobre um perigo próximo aos portões do reino era algo a ser considerado, sendo isto verdade ou não. Ele pensou que talvez Dáin estivesse certo, mas era bastante duro receber uma recusa, ainda mais tratando-se de uma causa tão importante.
- Dáin, posso até entender seus motivos, mas não nego que me sinto abandonado por meu próprio irmão. – e suspirou, dando-se por vencido – Mas está bem. Se você prefere assim, fique aqui entocado enquanto eu parto. Só peço que minha família possa permanecer aqui para o caso de eu não voltar.
Thailis segurou as lágrimas.
- Sua família sempre terá proteção aqui, meu irmão. Mas, como disse, seria melhor que você desistisse dessa ideia absurda.
- Não. De jeito algum. Vou partir em direção a Gundabad amanhã mesmo. Quanto mais cedo melhor.
Dáin suspirou e colocou a mão no ombro do irmão.
- Desculpe, Náin. Espero que entenda meus motivos e não se ressinta.
- Não se preocupe. Não levarei ressentimentos embora não concorde com sua decisão. Mas, já que essa conversa acabou, podemos beber um pouco e conversar sobre assuntos mais leves?
- Claro, claro. Venha comigo.
Thorin, Lánis e Thailis foram andando para o salão principal antes que a porta fosse aberta. Todos estavam apreensivos com o rumo que as coisas tomaram. Preocupavam-se com Náin e com seu destino em Angmar. Thailis, calada, tentava não chorar. Lánis vez ou outra chutava o ar enquanto andava, tentando não imaginar seu tio sendo morto por um orc. Thorin, com as mãos para trás, pensava em uma forma (se houvesse) de convencer seu tio a não partir. Somente o exército de Gundabad poderia não ser suficiente para vencer os orcs. E então, o que seria? Que consequências sinistras essa investida possivelmente temerária dos anões traria a seus parentes e amigos? E Dáin? Fizera bem em não ajudar? Talvez sim. Erebor, como ele dissera, ainda se recuperava das perdas em guerras passadas, de modo que arriscar o envio de tropas agora poderia ser uma grande tolice. E ainda havia os tais rumores sobre um perigo espreitando ao sul.
- Algum de vocês sabe o que está acontecendo a sul daqui? – perguntou Thailis.
- Não com exatidão – respondeu Thorin – mas dizem que pessoas malvadas andam espreitando perto da Cidade do Lago. Dizem que elas vêm das terras distantes e selvagens a leste. São amigos dos orcs, pelo que se diz. Mas até agora nada de concreto aconteceu. Papai está sempre vigilante porque um povo amigo de orcs sempre é um problema.
Nesse momento Bráin encontrou-os. Estava com uma cara melhor, descansado e disposto a conversar. Thorin contou a ele tudo o que acontecera na sala de reuniões. Ele não ficou surpreso.
- Tio Dáin realmente parecia decidido a não ajudar, mesmo que achasse a causa justa. Para falar a verdade, nem papai deveria ir. – disse ele.
- Nisso eu concordo com você. – respondeu Thorin. – Mas ele vai. E amanhã.
- Já? – surpreendeu-se o menino – Pensei que ele iria esperar ao menos até o fim da semana.
- Não vou não, meu filho. – disse Náin, que alcançara os meninos e ouvia a conversa sobre o que debatera a portas fechadas com o rei de Erebor. Os quatro viraram-se ao mesmo tempo.
- Ouvindo atrás da porta hein? – Dáin, ao lado do irmão levantou uma sobrancelha e cruzou os braços.
Ninguém respondeu, mas dessa vez a travessura foi deixada de lado e todos foram ao salão principal comer alguma coisa (e beber bastante coisa). Os meninos aproveitaram para acertar a aposta, da qual Bráin lamentou não ter participado. Lánis e Thorin receberam três moedas cada um. Thailis aceitou a derrota presente mas disse que haveriam outras oportunidades para recuperá-las. Foi aí que Thorin lembrou-se das aulas de arco e flecha que ofereceria a Lánis. Levantou-se e foi falar com o pai, voltando com uma carinha bastante animada.
- Lánis – começou ele – você começa amanhã!
Lánis levantou-se e começou a cantar alto e a dar gritos de “viva!”. Todos os presentes riram de sua animação, mas teriam feito reverências se soubessem o que aquela anãzinha loira e de rostinho redondo se tornaria no futuro por causa daquelas aulas.
Mais nada de especial aconteceu naquele dia, salvo apenas a insistência de Thorin em tentar convencer seu teimoso tio a não partir no dia seguinte. Claro que ele não foi ouvido, mesmo argumentando com tanta perspicácia. Paciência. Náin partiria assim que o primeiro raio de sol fosse visto no leste.
Antes da aurora os familiares de Náin estavam diante dos portões principais para desejar uma boa viagem ao rei de Gundabad. Thailis era a única que chorava, mas seu pai a consolou dizendo que retornaria. Suas palavras eram carregadas de certeza, por isso a menina acalmou-se. A todos os outros, Náin desejou uma espera sem inquietações. Não gostava de despedidas, por isso não falou muita coisa. Ele agia como se estivesse de partida para um reino vizinho a fim de tratar de negócios e não para uma guerra da qual poderia não retornar. E assim, com palavras de confiança e um grande sorriso no rosto, montou em seu cavalo e partiu.0 Gostei!, 0 Ótimo, 0 Péssimo, 0 FAIL, 0 LOL, 0 Mandar coração









